sábado, 30 de maio de 2020

Os Três Porquinhos



1Era uma vez, três porquinhos que viviam na floresta com a mamãe. Um dia, como já estavam muito crescidos, decidiram ir viver cada um em sua casa. A mãe concordou, mas avisou-os:
----Tenham muito cuidado, pois na floresta também vive o lobo mau, e eu não vou estar lá para protegê-los…
---- Sim, mamãe! – Responderam os três ao mesmo tempo.
Os porquinhos arranjaram material e procuraram um bom lugar para a construção das novas moradias e, assim que o encontraram, cada um começou a fazer a sua própria casa.
5O porquinho mais novo, que só pensava em brincar, estava com pressa, fez a sua casa muito rapidamente, usando palha. O porquinho do meio, ansioso por ir brincar com o mais novo, juntou uns paus e, mais que depressa, construiu uma casa de madeira. O porquinho mais velho, que era o mais ajuizado, lembrou-se do que a sua mãe lhe havia dito, e pensou:
---- Vou construir a minha casa de tijolos, assim terei uma casa mais durável e muito resistente para me proteger do lobo mau.
É claro que ele foi o porquinho que demorou mais tempo a construir a casa, mas no fim, estava muito orgulhoso dela, e só depois de ver a casa pronta, juntou-se aos seus irmãos para brincar alegremente.
Um dia, andavam os três porquinhos pelos campos, rindo e brincando, aproveitando a diversão, quando apareceu o lobo mau:
---- Olá! Vejo três deliciosos porquinhos à minha frente.
10Ao verem o lobo mau, fugiram cada um para a sua casa. E o lobo, que estava cheio de fome, chegou ao pé da casa do porquinho mais novo, e disse:
---- Essa casa de palha cheira-me a porquinho! Saia daí que eu vou te comer! Senão sair, deito a sua casa de palha abaixo…
Como estava com medo, o porquinho mais novo não saiu. E o lobo tentou intimidá-lo mais uma vez:

eu gosto de mandar.
15Se não me obedecem,
eu posso me zangar!”

E nada do porquinho obedecer.
Então, o lobo bufou, e estufou o peito e soprou tão forte, que a casa de palhas voou pelos ares.
O porquinho, que antes era todo serelepe e só pensava em brincar, estava muito assustado, e correu em disparada ao encontro do irmão do meio, que havia construído uma casa de madeira. “Ufa! Que sufoco!” pensou o porquinho mais novo. E, pedindo ajuda ao irmão, foi logo entrando na casa de madeira.
20O lobo, que havia perdido a suculenta caça, ficou ainda mais irritado e, ao ver seu petisco fugindo, deu um jeito de alcançá-lo. Mas, a fera de dentes enormes pensou estar em vantagem, porque ao chegar à casa de madeira, descobriu que, ao invés de um porquinho, poderia devorar dois. E já imaginando a fartura da refeição, o lobo gargalhou e informou:
---- Essa casa de madeira cheira-me a porquinhos! E eu estou com tanta fome que vou devorar os dois!… Saiam já daí, estou sem paciência, e a fome está a me matar.
E o faminto novamente ameaçou:

eu gosto de mandar.
25Se não me obedecem,
eu posso me zangar!”

E com dois sopros, conseguiu deitar a casa de madeira abaixo.
Os dois porquinhos saíram novamente em disparada, apavorados, em direção à casa do irmão mais velho, que havia construído uma casa de tijolos, pois temia os perigos da floresta.
O lobo, vendo que os três porquinhos estavam todos numa só casa, exclamou, aos pulos de alegria, louco para botar as patas naqueles bichinhos:
30---- Cheira-me a porquinho, esta casa de tijolos novinhos. Aliás, sinto um concentrado cheiro de três porquinhos apetitosos!

 “E mais fome não vou eu ter,
pois apanharei a todos,
um por um dos porquinhos
para comer!”

35Então o lobo encheu o peito de ar e soprou com toda a força que tinha, que até se engasgou. “Cof, cof!” Mas a casinha de tijolos não se mexeu nem um bocadinho.
Aliviados, os três porquinhos saltitaram de contentes. Mas o lobo não
desistiu, e logo desatou a gritar, muito irado:

“EU MANDO E NÃO PEÇO,
EU GOSTO DE MANDAR.
SE NÃO ME OBEDECEM,
40EU POSSO ME ZANGAR!”

 E nada, os porquinhos continuavam bem quietinhos, trancafiados, na cada do irmão mais velho.       
---- Não consegui derrubar a casa de tijolos abaixo. Nem sequer derrubei a porta, mas tenho outra ideia… Esperem que já vão ver! - E começou a subir o telhado, em direção à chaminé.

 É agora  que eu desço,
E os porquinhos vou pegar,
45Sei que eu mereço,
E a minha fome vou matar.
Esses moleques atrevidos
Fizeram eu me cansar.”

Os porquinhos mais novos ficaram aflitos, enquanto o mais velho, que era muito esperto, colocou no fogão, por baixo da chaminé, um grande caldeirão de água a ferver.
50O lobo, ao descer pela chaminé, caiu no caldeirão de água quente e queimou o rabo. Com tamanha dor, o malvado fugiu o mais rápido que podia para o meio da floresta.
Desse lobo mau, tão esbravejante e esfomeado, que lutou como muita garra, para tentar um jantar suculento, nunca mais se ouviu falar.
E a respeito dos três porquinhos? Ah, esses continuam por aí, desafiando o perigo. Depois que o lobo foi embora, os dois porquinhos agradeceram ao irmão mais velho por tê-los socorrido quando mais precisaram.
Foi com o irmão trabalhador e responsável que os dois porquinhos aprenderam várias lições: tudo o que for feito com mais dedicação e amor tem mais chances de sucesso; um mundo melhor depende de atitudes melhores; e há tempo para as obrigações e para as diversões, é só saber organizar direitinho o tempo.
E assim, os três irmãos continuaram na floresta, consertaram os estragos feitos pelo lobo e viveram felizes lá para aquelas bandas por muitos e muitos anos. 

55Quem tem medo do lobo mau,
lobo mau, lobo mau?!
Quem tem medo do lobo mau,
lobo mau, lobo mau?!
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Curiosidades sobre a história

Os Três Porquinhos
Os contos de fada não são histórias contadas apenas para divertir ou entreter as crianças. Essa forma de narrativa apresenta frequentemente lições que, provavelmente, usamos pela vida toda.
No passado, quando não havia ainda a forma escrita de comunicação, as pessoas contavam essas histórias oralmente e, assim, de boca em boca, esses contos foram repassados e repassados, de todas as formas e tamanho, até os dias atuais.
A história de “Os Três Porquinhos”, por exemplo, traz lições que podem ser ensinadas aos leitores e à sociedade, por exemplo: sobre o momento de assumir a vida adulta e suas obrigações;  sobre a construção de um teto para própria sobrevivência longe da casa dos pais (situação de proteção); sobre os perigos que a vida pode trazer, que cabe ao próprio indivíduo prevenir e evitá-los (as "casas" frágeis);  sobre a solidariedade (no momento de perigo em que os porquinhos se ajudam).
Ainda sobre aprendizagens, a história nos ensina sobre a possibilidade de se construir um futuro sólido, se houver dedicação e amor para com os nossos objetivos (a casa de tijolos); sobre a necessidade de atitudes melhores, para que o mundo seja um lugar melhor; sobre a organização do tempo, para que haja oportunidades de mais realizações pessoais e coletivas; sobre a união entre os seres, que facilita a sobrevivência e a solução de problemas (o abrigo na casa de tijolos).
Não se deve privar o essencial direito à diversão, à alegria e aos momentos de descontração, para que os problemas sejam enfrentados com ânimo (o porquinho mais velho conseguiu enfrentar o lobo com ânimo).
Entre outras tantas visões que o texto pode apresentar, pois a interpretação é um ato subjetivo que depende do estado perceptivo do leitor, ainda podemos apontar a própria luta pela sobrevivência, na qual o lobo, sem medir esforços para matar a própria fome, destruiu, derrubou, ameaçou e perseguiu as vítimas. Como não obteve sucesso, teve que amargar a frustração do projeto mal sucedido. A criatura-fera agiu de forma egoísta e insensata, mas o lobo é um animal feroz, nesse caso, a ferocidade faz parte da sua essência. Nas relações humanas, temos oportunidades de agirmos como lobos, mas o bom senso costuma moldar e aprimorar nossos impulsos mais ferozes, permitindo, às vezes, que a ética nos encaminhe para uma versão melhor de nós.
Reforçando todas as características de ensino/aprendizagem que o texto apresenta, ao longo do desenvolvimento do conflito, fica bem clara a importância de persistir para conseguir vencer e, principalmente, não agir de forma imediatista.
A primeira versão da história de “Os Três Porquinhos” teria sido criada em torno de 1000 d.C., e não se conhece a autoria. Em 1383, o conto infantil foi adaptado para teatro, mas somente em 1890, foi popularizado graças a escrita de Joseph Jacobs, um escritor nascido em Sydney, Austrália em 1583. Os Três Porquinhos é uma fábula, cujas personagens são exclusivamente animais. A história dos Três Porquinhos já era conhecida na Inglaterra e Jacobs, como folclorista, resgatou contos tradicionais e os transformou em livros. O sucesso para Jacobs foi a utilização de uma linguagem clara e feita para a literatura infantil.
Essa história continua por aí, pronta para ser desvendada e observada por todos os pares de olhos leitores. Divirtam-se encontrando mais detalhes sobre comportamento, que os três porquinhos podem nos ensinar.

Adaptações para fins pedagógicos – Sandra Garcia
Referências
Disponível em:
< https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Tr%C3%AAs_Porquinhos> Acesso em: 30/5/2020. Adaptado.
Referência de Imagem

domingo, 24 de maio de 2020

Quase um enigma, essa Duquesa. "Decifra-me" (!?)




“Nunca imagine que não ser diferente daquilo que pode parecer aos outros que você fosse ou pudesse ter sido não seja diferente daquilo que tendo sido poderia ter parecido a eles ser diferente.”

(A Duquesa - Alice no País das Maravilhas)


sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O Bicho-Papão


         

            “Era uma vez um bicho que vivia para amedrontar criança teimosa”. Toda vez que os pais pediam alguma obediência aos filhos menores e eles não obedeciam, logo eram avisados que o bicho-papão poderia aparecer.
            As crianças, com medo daquela fera desconhecida, procuravam fazer tudo o que era solicitado pelos pais. Mal sabiam elas, que os pais, na verdade, queriam protegê-las de algum possível perigo. Por exemplo, quando a criança pensava em abrir o portão para ir à rua desacompanhada, o pai logo dizia:
           ---- Não abra o portão, porque lá fora tem bicho-papão.
            O bicho-papão é usado para pôr medo nas crianças desde há muito tempo. Essa forma imaginária e primitiva de conseguir a obediência dos filhos atravessou gerações e ainda perdura, em algumas famílias, nos dias atuais.
            Depois de crescida, a criança acaba descobrindo que o monstro não existe, que era mesmo apenas uma forma imaginária de proteção ou de garantia de obediência utilizada pelos pais. Na maioria das vezes, essa era uma maneira carinhosa de mostrar aos filhos que, apesar de todas as maravilhas e da beleza da vida, eles precisavam tomar muito cuidado, porque o mundo é cheio de perigos e bichos-papões.  
Sandra Garcia

    
            

sábado, 25 de novembro de 2017

Um Apólogo - Machado de Assis




     

            Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
          — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
             — Deixe-me, senhora.
          — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça – resmungou a agulha.
         — Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
            — Mas você é orgulhosa - ironizou a agulha.
            — Decerto que sou.
            — Mas por quê?
            — É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? - gabou-se a linha.
            — Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
            — Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
            — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
            — Também os batedores vão adiante do imperador - desdenhou a linha.
            — Você é imperador?
            — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
            Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
            — Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
            A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
            Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
            — Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
            Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
            — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
            Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
            — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!




(Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.)
Adaptações para fins pedagógicos, a fim de que ficasse mais compreensível para alunos do Ensino Fundamental 2.
 Observação: Não consigo "ainda" organizar a paragrafação da postagem. Portanto, alunos, em caso de cópia manuscrita, mantenham a mesma distância da margem esquerda, cada vez que iniciarem parágrafos. Respeitem as margens para que seu trabalho apresente boa organização e estética. Fiquem atentos à ortografia e caligrafia. 
Bom trabalho! 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Há Algo Dentro De Mim Que Me Salva De Mim Mesma

Muitas vezes quando estou presa nas gaiolas que ainda me limitam, a minha lembrança voa e pousa em memórias que desenham em mim um sorriso bom. Quando percebo, eu sou toda aquele sorriso, como se cada célula, naquele instante, pudesse sorrir também. Não sei se isso acontece pela alegria que o meu coração experimenta nos lugares que visita ou simplesmente porque me dou conta de que há algo em mim que continua livre.

Ainda que por tantos motivos eu me sinta enredada. Ainda que por tantos motivos eu desafine no canto que ofereço à vida e, de forma mais particular, no canto que eu me ofereço. Há algo em mim que não desaprende esse caminho. Que segue, quando, aparentemente, eu paro. Que continua a luzir, mesmo quando eu tropeço nas minhas sombras. Há algo em mim que me salva de mim. Que me leva pela mão para brincar, para conhecer o que continua vivo e belo além de toda e qualquer gaiola, além dos meus tempos de muda.

Algo que me mostra uma paz intensa e verdadeira. Que não me deixa esquecer que continuo a ter asas, mesmo quando eu não voo. A memória, de alguma forma, me ajuda a lembrar de tudo isso, porque nunca desfaz a mesa onde eu posso me alimentar, sobretudo quando mais preciso, com lembranças perenes de amor.

Quando acontecem situações como esta, eu percebo que somos o que sentimos a cada instante.
Que somos o lugar, não importa onde estamos. Percebo, principalmente, que, por maiores que sejam os apelos externos, não precisamos nos limitar em gaiola alguma. Nem nas que criamos para nós nem naquelas que os outros, sejam lá por quais razões, querem nos prender.

Ninguém precisa continuar a se sentir preso quando pode recordar com o próprio sentimento o quanto a vida pode ser mais fácil e amorosa, embora tantas vezes as circunstâncias tentem nos convencer do contrário.

Eu sei que a memória também nos apronta surpresas desconfortáveis. Que, de vez em quando, ela nos põe em contato com lembranças que por nada nesse mundo queremos rememorar e que não existe nenhum botão que possa ser apertado para evitarmos esse encontro. Mas os benefícios que propicia superam os eventuais desconfortos.

Recorro a ela várias vezes para me nutrir, mas não fico por lá além do necessário. No retorno, costumo voltar mais confiante. Ela me lembra de que tudo passa, mas que algumas dádivas conseguem transpor as aparentes cercas do tempo. Dádivas, por exemplo, como o amor compartilhado.

Ana Jácomo


Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento?


            Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de servir-se de seu próprio entendimento sem direção alheia. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando ela não é causada por falta de entendimento mas, sim, por falta de determinação e de coragem para servir-se de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro. Sapere aude!**. Ousa fazer uso de teu próprio entendimento! Eis o lema do Esclarecimento.
            A preguiça e a covardia são as causas de que a imensa maioria dos homens, mesmo depois de a natureza já os ter libertado da tutela alheia, permaneça de bom grado a vida inteira na menoridade. É por essas mesmas causas que, com tanta facilidade, outros homens se colocam como seus tutores. É tão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, se tenho um diretor espiritual que assume o lugar de minha consciência, um médico que por mim escolhe minha dieta, então não preciso me esforçar. Não tenho necessidade de pensar, se é suficiente pagar. Outros se encarregarão, em meu lugar, dessas ocupações aborrecidas.
            A imensa maioria da humanidade considera a passagem para a maioridade, além de difícil, perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram-na sob sua supervisão. Depois de terem, primeiramente, emburrecido seus animais domésticos e impedido cuidadosamente essas dóceis criaturas de darem um passo sequer fora do andador de crianças em que os colocaram, seus tutores
Mostram-lhes, em seguida, o perigo que é tentarem andar sozinhos. Ora, esse perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar, finalmente, depois de algumas quedas. Basta uma lição desse tipo para intimidar o indivíduo e deixa-lo temeroso de fazer novas tentativas.


Immanuel Kant

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cem anos de perdão


    Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.
    Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
    Começou assim. Numa dessas brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
    Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah, como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. 
    Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. 
    Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
    Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro; vigiar os transeuntes raros na rua. 
      Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
    Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
    E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.
    O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.
    Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
    Foi tão bom.
    Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
      Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. 
      Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. 
      Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.
       Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Clarice Lispector

Um texto e um teor ... digamos ... apimentado. 
Sandra Garcia