domingo, 27 de março de 2011

Da pérfida Gertrúria o juramento

XXIV

Da pérfida Gertrúria o juramento

Parece-me que estou inda escutando,

E que inda ao som da voz suave e brando

Encolhe as asas, de encantado, o vento.


No vasto, infatigável pensamento

Os mimos da perjura estou notando...

Eis Amor, eis as Graças festejando

Dos ternos votos o feliz momento.


Mas, Ah!...Da minha rápida alegria

Para que acendes mais as vivas cores,

Lisonjeiro pincel da fantasia?


Basta, cega paixão, loucos amores;

Esqueçam-se os prazeres de algum dia,

Tão belos, tão duráveis como as flores.

(Bocage)


Em Portugal, o Arcadismo se inicia em 1756, num momento em que intelectuais e artistas discutiam a “Arte Lusitana”. O lema desses estudiosos era “Inutilia truncat” (fim das inutilidades). A ideia era erradicar os exageros, o rebuscamento e extravagâncias do barroco, em busca de uma literatura simples.

Um dos autores de grande importância foi Manuel Maria Barbosa Du Bocage. No poema acima o “eu lírico” demonstra sua decepção amorosa e ironiza o amor comparando-o com a durabilidade das flores.

...

“Tão belos, tão duráveis como as flores.”

(Sandra Garcia)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Meu Deus que Estais Pendente

Meu Deus que estais pendente

(Gregório de Matos)


Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,

Em cuja lei protesto de viver,

Em cuja santa lei hei de morrer,

Animoso, constante, firme e inteiro:


Neste lance, por ser o derradeiro,

Pois vejo a minha vida anoitecer;

É, meu Jesus, a hora de se ver

A brandura de um Pai, manso Cordeiro.


Mui grande é o vosso amor e o meu delito;

Porém pode ter fim todo o pecar,

E não o vosso amor que é infinito.


Esta razão me obriga a confiar,

Que, por mais que pequei, neste conflito

Espero em vosso amor de me salvar.



Ideias Barrocas

As idéias de Deus e do pecado, ao mesmo tempo que se opõem, são complementares. Embora Deus detenha o poder da condenação da alma, está sempre disposto ao perdão, por sua misericórdia e bondade; daí deriva Sua maior glória.O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (versos 13 e 14).

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/

sala_de_aula/portugues/literatura_brasileira/autores/lirica

Canteiros

Quando penso em você

Fecho os olhos de saudade,

Tenho tido muita coisa

Menos a felicidade.

Correm os meus dedos longos

Em versos tristes que invento,

Nem aquilo a que me entrego

Já me dá contentamento.

Pode ser até manhã

Cedo, claro, feito o dia,

Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria.

Eu só queria ter do mato

Um gosto de framboesa,

Pra correr entre os canteiros

E esconder minha tristeza.

E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza,

Deixemos de coisa, cuidemos da vida,

Senão chega a morte

Ou coisa parecida

E nos arrasta moço

Sem ter visto a vida.


(Cecília Meireles)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

RECURSOS ESTILÍSTICOS - GUILHERME RIBEIRO

PRECISA ANALISAR POEMAS?

SUGIRO ESTA PÁGINA!
ELA É DE FÁCIL ENTENDIMENTO,
ÓTIMA LEITURA,
MUITO PRÁTICA.
GOSTEI MUITO!

domingo, 7 de novembro de 2010

A Maçã - Raul Seixas

Se esse amor

Ficar entre nós dois

Vai ser tão pobre amor

Vai se gastar...


Se eu te amo e tu me amas

Um amor a dois profana

O amor de todos os mortais

Porque quem gosta de maçã

Irá gostar de todas

Porque todas são iguais...


Se eu te amo e tu me amas

E outro vem quando tu chamas

Como poderei te condenar

Infinita tua beleza

Como podes ficar presa

Que nem santa num altar...


Quando eu te escolhi

Para morar junto de mim

Eu quis ser tua alma

Ter seu corpo, tudo enfim

Mas compreendi

Que além de dois existem mais...


Amor só dura em liberdade

O ciúme é só vaidade

Sofro, mas eu vou te libertar

O que é que eu quero

Se eu te privo

Do que eu mais venero

Que é a beleza de deitar...


Quando eu te escolhi

Para morar junto de mim

Eu quis ser tua alma

Ter seu corpo, tudo enfim

Mas compreendi

Que além de dois existem mais...




quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

A vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nó da vida


De um lado para o outro
meu olhar confuso corre.
Tento desfazer tudo que fiz
e refazer o que da vida mais quis.
Mas, descubro que já é tarde.
Jamais encontrarei o começo,
o meio...

Pois, da vida só me restam
as lembranças e a dor
Procuro uma saída para tanta amargura.
tento reagir, mas desconheço seu fim.

(Marilene Teubner)