sábado, 3 de outubro de 2026

Tito - o tatu

 Tito  - o  tatu

O   Tito   é  um  tatu   tímido.

O  Tito  tem  uma  toca.

Todos   os   dias, o  Tito 

Caçava   bichinhos, 

E  procurava  plantinhas.

O  Tito  gostava   de  tomates.

Tito  não   tinha  tristezas.

Tito  voltava  para  a toca,

Quando   a noite  caía.

Tito  era muito  feliz.

 

Sandra Garcia 


domingo, 16 de agosto de 2026

Ecos

 

 Quando a noite lança seus braços

E a solidão rouba o sorriso tímido

E o silêncio mostra sua face mais sombria,

 Não há mais voo  livre,

Que desperte as ilusões simplórias,

Ou que aguça  os desejos

mais distantes da intimidade.

 

Quando a noite surge no horizonte,

Espalma bruscamente o pôr do sol,

Que acalentava as tormentas

profundas da existência.

A escuridão naufraga os barcos da coragem,

E as emoções se tornam piso instável

Para a viagem platônica que ecoa sem destino.

 

Quando a noite ocupa ferozmente

Os recantos mais íntimos,

Os olhos não são mais de ver,

E a penumbra quente  e úmida

Faz passagem e cai em chuva fina,

Sem forças para abrir as trincheiras

dos sonhos entorpecidos.

 

Sandra Garcia

terça-feira, 21 de julho de 2026

terça-feira, 14 de julho de 2026

sábado, 4 de julho de 2026

O girassol gracioso

 


Um girassol gracioso

Girou sob o sol grandioso,

Abriu suas pétalas glamorosas

Num tom amarelo, intenso e glorioso.

 

Esse girassol giratório

Enfeitou a terra gigantesca,

Coloriu o quintal com leveza e graça,

Brilhando como  ouro, maravilhoso.

 

Esse girassol garboso,

Tão generoso e gentil,

Garantiu alegria girando ao sol,

Num giro que ninguém sentiu!


Sandra Garcia



Atividade para o 2º Ano, Ensino Fundamental 1.

O objetivo era o desenho da letra G e escrita das palavras com G.

Fiz atividades sobre classes gramaticais (substantivos, verbos, adjetivos, artigos e pronomes); versificação e estrofes; divisão silábica; interpretação e criação imagética do girassol; ilustração de texto.



A fada feliz



A fada feliz ficou na floresta,

Para fazer festa e fantasia,

Floriu as flores,

formou um lago fantástico

e fez peixinhos falantes.

A  fada feliz ficou animada:

— Fiz tudo ficar colorido!

Depois foi embora

Toda formosa e faceira,

Sua magia farfalhava

As folhas de um mundo infinito.

As florestas fascinantes festejaram

A vida colorida, fabulosa e festiva

Que uma fada feliz inventara.


Sandra Garcia


Texto elaborado para o 2º Ano, Ensino Fundamental 1. 
O objetivo era desenhar o F e escrever palavras com F. 
Fiz tividades com: classes gramaticais (adjetivos, verbos), versificação, leitura e interpretação, a criação imagética da fada e do ambiente. 









Sê tu



Sejas um poema onde estiveres,

porque cabe a ti a beleza de existir...

Cabe a ti a delicadeza de ser...

Cabe a ti toda e qualquer forma de passagem

que promovas neste chão que habitas.


(Sandra Garcia)








A Canoa - Paulo Freire

 

Em um largo rio, de difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas de um lado para o outro. Em uma das viagens, iam um advogado e uma professora. Como gostava de falar muito, o advogado pergunta ao barqueiro:

— Companheiro, você entende de leis?

— Não! –  respondeu o barqueiro.

E o advogado, compadecido diz:

— É uma pena, você perdeu metade da vida.

— A professora, muito social, entra na conversa:

— Seu barqueiro, você sabe ler e escrever?

— Também não, respondeu o barqueiro.

— Que pena! – condói-se a professora – Você perdeu metade de sua vida!

Nisso chega uma onda bastante forte e vira o barco. O barqueiro, preocupado, pergunta:

— Vocês sabem nadar?

— Não !!!! – responderam o advogado e a professora, rapidamente.

— Então… – disse o barqueiro – …é uma pena! Vocês perderam a vida toda !!! 

 Paulo Freire

MORAL DA HISTÓRIA:

"NÃO HÁ SABER MAIOR OU MENOR, HÁ SABERES DIFERENTES;

Pense nisso e valorize todas as pessoas com as quais tenha contato -

CADA UMA DELAS TEM ALGO DE DIFERENTE A NOS ENSINAR.

 

Frases que podem servir como moral para esta história.

– Ninguém é melhor do que ninguém.

–Ter estudo é ter mais oportunidades, mas não me torna melhor do que os outros.

Muitos que estudaram e se formaram, menosprezam quem não teve as mesmas oportunidades. Mas todos têm algo a ensinar.

– Ninguém sabe tudo, mas todo mundo sabe alguma coisa.

Não é saber mais ou saber menos, são saberes diferentes.

ADAPTAÇÕES PARA FINS PEDAGÓGICOS.

    Disponível em:<https://atividadesparaeja.blogspot.com/2013/11/atividade-reflexiva-canoa-paulo-freire.html> Acessoem:26/1/2025

Disponível em:<http://portaldaescola.riobranco.ac.gov.br/wp-content/uploads/2021/11/40-LINGUA_P0RTUGUESA_-_M0DUL0S_I_E_IV11-06-202116_23_28.pdf >Acesso em: 26/1/2025


A índia Inara

 


Inara seguia à margem de um igarapé

sempre impetuosa e valente.

Seus passos inteligentes

caminhavam imponentes,

guiando Inara por paisagens inocentes,

sobre o mato e os espinhos insolentes,


Era incrível, a indígena Inara.

Ela vagava pela floresta, rios e vales  imensos.

sem medo da chuva e dos ventos intensos,

mas voltava para a tribo 

antes da noite subir junto à Lua clara.


Inara gostava de imaginar

o Sol e a Lua a iluminar

além do horizonte, além do mar.


Sandra Garcia 


Este texto foi criado para uma turma de 2º Ano do Ensino Fundamental 1, anos iniciais.


São várias oprotunidades de atividades. O meu objetivo era a leitura e o desenho da letra "i". Mas também trabalhei adjetivos, substantivos, letra maiúscula e minúscula, versos e estrofes, personificação. Interpretação e criação imagética da indígena Inara. e, ainda, a ilustração.


Sandra Helena Garcia
Licenciada em Letras.
Pós-graduada em Pisicopedagogia e Neuropsicopedagogia. 





quinta-feira, 4 de junho de 2026

O FEIRANTE ENROLADO

 

O  SENHOR  HENRIQUE  TINHA  UMA    BANCA ,   

MAS  ELE  ERA  TODO  ENROLADO.

NÃO   SABIA ONDE  FICAVA  

AS  BANANAS, PÊSSEGOS  E  MAÇÃS.

TAMBÉM  TINHA  PEIXE  QUE,  

PELA   GUELRA ,   FOI   FISGADO,

E  NO   TETO   DA  BANCA,  

O BICHINHO  ESTAVA   ENROSCADO.

PARA  PIORAR, 

O  ABACAXI  NÃO  AGUENTAVA  MAIS   

O CHEIRO  DO  SEU  VIZINHO  ESCAMADO.  

E  O  MARACUJÁ  QUE, DE  TÃO  ABANDONADO,  

ESTAVA  TODO  ENRUGADO.

E, QUANDO  DE  LONGE,  SE  OUVIA  

UM  CHILRO  LONGO, LONGO,  

LOGO  O  MELRO  VISITANTE,

IA   SE   ENREDANDO,

POR  UMA  FRUTINHA  ESPERANDO.  

E  COM  UMA  TENRA   UVINHA,  

O SENHOR   HENRIQUE  HONRAVA   A  ILUSTRE VISITA.   

ASSIM  ERA  A BANCA  DO  SENHOR  HENRIQUE: 

ENRIQUECIA  OS  OLHOS

DE  QUEM  POR  ALI   PASSARAVA.

 



Imagem - CHATGPT

 Sandra Helena Garcia 

Licenciada em Letras e Pedagogia
Graduada em Psicopedagogia e  Neuropsicopedagogia

Produzi o texto para trabalhar com o 2ºAno – Anos Iniciais, os sons de r precedido de n ou l e  o sons de s /z/ e  s /ss/.

Através desse texto é possível desenvolver  inúmeras atividades:
- Os sons sons do R
- Dígrafos com R; 
- Divisão silábica com as palavras do texto (quantidade de sílabas);
- Tonicidade das palavras (sílaba forte e sílaba fraca);
- Produção de frases com as palavras do texto (sons de R);
- Quantidade de versos e estrofes; rimas (produção de rimas com palavras do texto);
- Compreensão do texto;
- Ideias imagéticas sobre o texto (situações que imaginamos ao ler o texto) -  pensar de olhos fechados sobre: a barraca da feira, os produtos, características do feirante, o universo ao redor da barraca, pássaros, insetos, o tempo cronológico, as pessoas, o local etc.;
- O trabalho na  feira-livre - o que vender, a organização dos produtos, o atendimento ao cliente, o clima, o trabalho é diário? os alimentos foram produzidos pelo feirante?, as vendas foram boas? produtos estragaram? tem lucro ou prejuízo?  etc.;
- Montagem de uma barraca na escola, cada aluno traz um produto para vender (uma feira na escola). 

 








sábado, 23 de maio de 2026

A HORTA DO HUGO - H INICIAL



A   _____ORTA   DO  ______UGO

NA   ____ORTA    DO    ____UGO    

____ AVIA     ____ORTALIÇAS   TODO  DIA.

O  ____UGO    CUIDAVA     DA    ____ORTA    

E   COM   BOM   ____UMOR   VIVIA.


O   SENHOR  _____ONÓRIO,

UM   _____OMEM      ____UMILDE,      

FOI    À     ____ORTA     _____OJE.

ELE    QUERIA    UM    MAÇO    DE  _____ORTELÃ. 


DEPOIS   CHEGOU   DONA  _____ELENA,

ELA  QUERIA  FLORES  DE  ____IBISCO. 

O   ____UGO    COLHEU    AS   FLORES,

E    TAMBÉM    O   ____ORTELÃ      FREQUINHO.


ENQUANTO   NA   _____ORTA 

TUDO    SE    COLHIA,

LÁ    NO    _____ORIZONTE, 

O   SOL  DESCIA. 



Sandra Helena Garcia 
Licenciada em Letras e Pedagogia
Graduada em Psicopedagogia e  Neuropsicopedagogia

Através desse texto é possível desenvolver  inúmeras atividades:
- O som do H;
- Dígrafos com H; 
- Divisão silábica com as palavras do texto (quantidade de sílabas);
- Tonicidade das palavras (sílaba forte e sílaba fraca);
- Produção de frases com as palavras do texto;
- Quantidade de versos e estrofes; rimas (produção de rimas com palavras do texto);
- Compreensão do texto;
- Ideias imagéticas sobre o texto (situações que imaginamos ao ler o texto) -  pensar de olhos fechados: a cor da horta, os canteiros, quais hortliças, características do Hugo, imagem do universo ao redor da horta, pássaros, insetos, o tempo cronológico etc.;
- O trabalho no campo - cultivo (a semente, a terra, a água, a germinação, o clima, os cuidados, o trabalho diário e incessante, horários específicos, o que plantar, tempo de espera para colher etc.);
- Plantio de sementes em vasos (uma horta em sala). 



quarta-feira, 20 de maio de 2026

A CARROÇA E A CARRETA

 




A  CARROÇA  E  CARRETA


A  CARROÇA  E  A  CARRETA

SE  ENCONTRARAM  NA  ESTRADA.

UMA  VINHA  À  DIREITA,

À  ESQUERDA, A  OUTRA  PASSAVA.

UMA   ERA   AMARELA   PEROLADA,

A OUTRA, O  FERRUGEM  ENFERRUJAVA.

A  PRIMEIRA  FOI  PARA  O  NORTE,

A  SEGUNDA,  DIRETO   AO   SUL

  E  A  ESTRADA, QUE   ERA   RETA, 

PARA  UM  LADO   E  PARA  O OUTRO,

TAMBÉM  FOI!



Sandra Helena Garcia 
Licenciada em Letras e Pedagogia
Psicopedagoga
Neuropsicopedagoga

Atividade sobre os sons do R
Atividade com dígrafos RR  para 2º Ano/ Fubdamental I

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Venha ver o pôr do sol


Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.

- Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

- Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.

Ele riu entre malicioso e ingênuo.

- Jamais!? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?

- Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro.

- Hein?! Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço. Você, está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal? Podia ter escolhido um outro lugar, não? -Abrandara a voz.

- E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.

Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.

- Ricardo e suas idéias. E agora? Qual o programa?

Brandamente ele a tomou pela cintura.

- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr-do-sol mais lindo do mundo.

Ela encarou-o um instante. Envergou a cabeça para trás numa risada.

- Ver o pôr-do-sol!... Ali, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério...

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

- Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...

- E você acha que eu iria?

- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada... - disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento.

- Você fez bem em vir.

- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

- Mas eu pago.

- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

- Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas ideias vai me consertar a vida.

- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado - prosseguiu ele, abrindo o portão.

Os velhos gonzos gemeram.

- Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

- É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.

O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos.

Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos, medalhões de retratos esmaltados.

- É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente - exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.

- Vamos embora, Ricardo, chega.

- Ali, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja, e você se queixa.

- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

- Ele é tão rico assim? - Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

- Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio tantã... Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Quando penso, não entendo como aguentei tanto, imagine, um ano!

- É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?

- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. - Pois sim. Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

- Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja - disse apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas... Esta é a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim.  Deu-lhe um rápido beijo na face.

-Chega, Ricardo, quero ir embora.

- Mais alguns passos...

- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! - Olhou para trás. - Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

- A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio - lamentou ele, impelindo-a para a frente. - Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr-do-sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

- Sua prima também?

-Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas... Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

-Vocês se amaram?

-Ela me amou. Foi a única criatura que... Fez um gesto. - Enfim, não tem importância.

Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.

- Eu gostei de você, Ricardo.'

-E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

- Esfriou, não? Vamos embora.

- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira.

Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba. Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

- Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.

- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

- E lá embaixo?

- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó - murmurou ele.

Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la.

- A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

- Todas essas gavetas estão cheias?

- Cheias?... Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe - prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

- Vamos, Ricardo, vamos.

- Você está com medo.

- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado.

- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... - Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. - Não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

- Que frio faz aqui. E que escuro, não estou enxergando! Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

- Pegue, dá para ver muito bem... - Afastou-se para o lado. - Repare nos olhos. Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... - Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. - Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida... - Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel.

- Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso – meio inocente, meio malicioso.

- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! - exclamou ela, subindo rapidamente a escada. - Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco. - Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! - Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

- Boa noite, Raquel.

- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - Gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo. - Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! - exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. -Não, não...

Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

- Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

- Não...

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos.

E, de repente, o grito medonho, inumano: NÃO! Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora, qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

 

Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Sabor Pitanga - Marielene Teubner

EDVALDO ROSA ESCREVE:

Sabor Pitanga - Resenha

Fui buscar dentre minhas memórias o sabor pitanga com o qual adocei em certo momento a minha vida... Fui buscar em mim alguma referência que me auxiliasse a entender o espirito que permeia o livro de poesias de Marilene Teubner, Sabor Pitanga.

A pitanga é uma fruta carnosa, vermelha (a mais comum), amarela ou preta, e bastante saborosa, rica em cálcio, a pitanga é nativa da mata atlântica brasileira, encontrada desde Minas Gerais até o Rio Grande do Sul.

Pode ser encontrada também na ilha da Madeira, Portugal, onde foi introduzida.

Mas sobretudo a pitangueira é nativa das terras brasileiras, e assim, o Sabor Pitanga é bem brasileiro!

A palavra “pitanga” vem do tupi-guarani, e significa “vermelho”.É por isso que nos poemas do livro Sabor Pitanga de Marilene Teubner os sentimentos são constantes e profundos.

A planta é cultivada tradicionalmente em quintais domésticos. Dá-se bem em terrenos arenosos junto às praias e os frutos são ótimos atrativos para pássaros.

Não é de se estranhar, portanto, que os poemas contidos no livro Sabor Pitanga de Marilene Teubner, quase uma centena, venham do fundo de seu coração, de sua mente e de sua alma.

É fato que o auxilio de sua vivência, tanto pessoal quanto poética, trouxeram ao livro Sabor Pitanga um frescor e uma vitalidade que rivalizando com a planta pitangueira, atrai e conquista o leitor já na leitura de suas primeiras páginas.

Não é demasiada a apresentação da poetisa na página 7, através de um acróstico de Dirce Cecilia Cozatti.

É de extrema sensibilidade a prescrição feita pela autora na página 9, com o poema “ Medicação “.

Assim contrariando a natureza da árvore, pitangueira, que tem um desenvolvimento moderado, já nos primeiros poemas do livro Sabor Pitanga podemos perceber uma crescente torrente de sentimentos...

Se a árvore é medianamente rústica, o mesmo não se aplica aos poemas de Marilene Teubner em seu livro Sabor Pitanga, a menos que consideremos sentimentos puros, profundos como rústicos!

Quanta sensibilidade vai sendo encontrada a cada página lida.

Chamou a minha atenção “Últimos versos”, quanto amor... Em “Perigo” , a ameaça de se amar demais!

Encontrei filosofia incrustada em “ Ostra “, que apreendamos a viver então.

E os temas das poesias de Marilene Teubner, em Sabor Pitanga, vão desfilando ao olhar atento com uma sensibilidade fina e antenada com a vida cotidiana, com os sentimentos e pensamentos das pessoas de hoje, mas que sonham amores e tecem desejos de tempos idos, quando tudo parecia ser bem melhor do que agora.

Assim, Sabor Pitanga, resgata valores importantes do ser humano, fala de desejos que todos, homens e mulheres, trazem dentro de si e que inibem sob o peso do dia a dia tão corrido, mais, Sabor Pitanga, revela a nossa face mais pura, “rústica” talvez, por não usar máscaras, agradável e amorosa.

Sabor Pitanga é um delicioso livro. E os seus poemas trazem o frescor de nossos melhores momentos vividos, e a esperança de vivermos estes mesmos momentos, caso não os tenhamos vivido.

Por fim, nas palavras de seu editor, Rossyr Berny, da editora Alcance, “ Pitanga, como a fruta, é um beijo sedento que mata a sua sede nos lábios da poesia e do amor. Delicie-se! “

Em tempo:

Sabor Pitanga

Marilene Teubner

Editora Alcance – 2008

Contato com a autora:

marileneteubner@hotmail.com

Edvaldo Rosa

WWW.EDVALDOROSA.COM.BR

27/01/2009

Edvaldo Rosa

Enviado por Edvaldo Rosa em 27/01/2009

Alterado em 27/01/2009